O bicho homem

O bicho homem

29 de janeiro de 2018 Blog 0
Vi ontem um bicho
Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos.
Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.
O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.
O bicho, meu Deus, era um homem.
(O Bicho – Manuel Bandeira)
Esses dias, estava voltando para o escritorio e vi um homem tirando comida do lixo e comendo. Eu me senti um lixo testemunhando isso, por vários motivos. Creio que o principal deles é que vivemos em um mundo em que existe comida para todos. Mas a maioria não recebe o mínimo necessário, o nosso sistema não acredita em igualdade. As indústrias preferem jogar fora no lixo, do que alimentar os famintos. O restaurante também. A gente desperdiça comida comprada no supermercado, que estragou na geladeira ou na despensa. Enquanto estamos vivendo a nossa vida cotidiana, tem tanta gente passando fome na rua, na periferia, na favela, no cortiço. É simplesmente revoltante, algo que me incomoda muito.
Eu faço trabalho voluntário há mais de 20 anos e tenho certeza que já ajudei muita gente. Fui testemunha de muitos sorrisos, esperanças e alegria. Ajudei pessoas a não desistirem, encorajei outras, e apoiei muita gente em diversas lutas. Cheguei a fazer comida para as pessoas que moram na rua. Mas o meu trabalho não tirou ninguém da rua. Não sei se consegui salvar uma vida. E isso é algo que me faz refletir às vezes.

Tudo que fazemos é para divulgar a cultura japonesa no Brasil e ajudar as entidades nikkeis. Uma missão nobre, solidária, mas em termos efetivos e estruturais, não sei se estamos conseguindo impactar a sociedade, e atingir as pessoas que realmente precisam da nossa ajuda. Como aquele homem. Será que todo esse meu trabalho pode algum dia resultar em uma sociedade na qual um ser humano não precise mais pegar comida no lixo? Ou devo me dedicar para uma outra causa, talvez?

 

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