Eu não sou parada no metrô. Porquê?

Eu não sou parada no metrô. Porquê?

15 de junho de 2018 Blog 0

Estava voltando da aula e tinha dois meninos no metrô. Eles eram negros, meio mal vestidos e estavam com celulares na mão. Gente, confesso que normalmente eu andaria meio longe (hahahaha), mas eu estou tentando adotar uma maneira diferente de (vi)ver a vida, então ao invés de ficar longe, não me distanciei dos meninos, fiquei andando normalmente. E percebi uma coisa. 

Passamos na catraca, eles pagaram a passagem com bilhete unico como eu. O cara do metrô chamou os meninos para “conversar”, saber para onde eles estão indo. E me deixou passar de boa. Quando eu cheguei para esperar o metrô, eles chegaram depois, por causa do funcionário do metrô. Daí entramos no vagão, eles ficaram mexendo no celular. E saímos na mesma estação, e (surpresa), outro funcionário do metrô parou os meninos para “conversar” com eles de novo. E eles não estavam fazendo nada de errado, só andando, conversando e olhando a tela do celular, assim como todos os outros que estavam no trem!
A gente devolve o que recebe da vida. Se eu sou recebida com um sorriso (e graças a Deus, em muitos lugares, é assim que me recebem), eu devolvo com um sorriso. Mas se sou recebida com desconfiança, rancor, ódio, oque vou devolver pro mundo? Sério, tento me colocar no lugar desses meninos, que estavam completamente de boa, e foram parados 2 vezes em menos de 10 minutos, e imagina quantas vezes eles não são parados por dia, mesmo sem terem feito nada de errado? Deve ser revoltante, muito frustrante, e compreendo que é injusto julgar o outro pela cor ou pela aparência.

Eu sou muito abençoada por ser bem recebida onde vou, e mesmo nos lugares onde não conheço ninguém, por causa da minha aparência e especialmente da minha ascendência, sou muitíssimo bem tratada. Posso entrar na livraria com um livro na mão, e ninguém vai achar que eu o roubei. Posso entrar num estabelecimento qualquer e ninguém me tratará como potencial criminosa. Posso pedir para ver uma roupa na loja, e a vendedora vai me atender. Aonde vou, sou respeitada. Faço parte de uma minoria super privilegiada, num país de desprivilegiados. E isso é muito triste.

A criança precisa receber amor para aprender como dar amor. E quando a gente não recebe amor em profusão, como vamos compartilhar esse sentimento bom para o mundo? Penso em quantas crianças, quantos jovens, adultos e idosos estão vivendo desse jeito, sendo destratados, ignorados, desvalorizados, mortos, assassinados. É revoltante. Oque eu posso fazer para mudar isso (me pergunto)? E a verdade é que não descobri ainda as respostas.

No show da Paula Lima, ela cantou essa musica linda da Sandra de Sá (Olhos Coloridos). E é verdade, muitos elementos da cultura negra são valorizados e invejados. A música, a moda, a cultura. Todos querem imitar. Mas porquê as pessoas negras são desvalorizadas em nossa sociedade maluca? Porquê rir do sorriso e da alegria de um povo? O Brasil é uma mistura de raças, e todos somos meio crioulos. Se me largarem no meio do Japão, eu serei sempre meio brasileira, diferente dos japoneses. E aqui no Brasil, serei sempre meio japonesa, diferente dos brasileiros. E essa mistura que é bonita!

Os meus olhos coloridos
Me fazem refletir
Eu estou sempre na minha
E não posso mais fugir…

Meu cabelo enrolado
Todos querem imitar
Eles estão baratinado
Também querem enrolar…

Você ri da minha roupa
Você ri do meu cabelo
Você ri da minha pele
Você ri do meu sorriso…

A verdade é que você
(Todo brasileiro tem!)
Tem sangue crioulo
Tem cabelo duro
Sarará, sarará
Sarará, sarará
Sarará crioulo…

 

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